Um Japão colorido me fez enxergar em preto e branco
Cor não faltava. Nos letreiros, nas embalagens, nos trens, no vermelho dos templos. Seria fácil, quase óbvio, voltar com um Japão saturado. Mas, diante das imagens no computador, percebi que a cor me dizia onde eu estava. O preto e branco me dizia o que eu tinha visto.
O teatro do preto e branco
Ninguém enxerga em preto e branco. Por isso mesmo, quando tiramos a cor de uma fotografia, ela deixa de fingir que é a realidade e assume o que sempre foi: uma representação. Um palco.
Nesse palco, a luz vira cenário, a sombra vira personagem, o gesto ganha peso de cena. O contraste separa a figura do fundo como um refletor separa o ator do resto do teatro. O grão lembra que há uma superfície entre nós e o mundo.
Pode parecer estranho falar em teatralização na fotografia documental, que se pretende fiel ao que aconteceu. Mas penso o contrário: o preto e branco é uma forma honesta de documentar, porque não esconde que há alguém olhando. Ele declara o ponto de vista. A cor, muitas vezes, nos convence de que a foto é uma janela. O preto e branco nos lembra que é uma escolha.
Uma tradição, não uma limitação
A fotografia documental nasceu em preto e branco. Durante décadas, por razões técnicas e de custo; depois, por escolha. Lewis Hine, Dorothea Lange, Walker Evans, Henri Cartier-Bresson, W. Eugene Smith, Robert Frank, Josef Koudelka, Sebastião Salgado: boa parte do que entendemos por olhar documental foi construída em tons de cinza.
No Japão, essa tradição ganhou uma virada radical. No fim dos anos 1960, a revista Provoke, fundada em 1968 e com apenas três números, deu nome a uma estética: are, bure, boke — granulado, tremido, fora de foco. Daido Moriyama, que entrou no grupo a partir do segundo número, levou essa linguagem adiante por décadas. Ali, o preto e branco não era nostalgia. Era rebeldia.
Caminhando por Tóquio, Kyoto, Osaka e Hiroshima, era impossível não sentir essa herança por perto.
Quando a cor virou senha
Em 1976, o MoMA, em Nova York, expôs William Eggleston's Guide: a primeira individual de fotografia em cor da história do museu. Foi uma conquista. A cor, até então associada à publicidade e às fotos de família, entrava pela porta da frente da arte.
O problema veio depois. O que era uma possibilidade virou regra, e a regra virou senha: para ser contemporâneo, era preciso fotografar em cor. O preto e branco passou a ser visto como coisa do passado, um gesto romântico ou um filtro de efeito.
Troca-se a linguagem pela época. Como se a escolha de uma ferramenta dissesse, sozinha, em que tempo vive quem a usa.
"Ainda em preto e branco?"
Vi esse preconceito acontecer de perto. Em semanas de fotografia e bienais de que participei ouvi alguns importantes leitores de portfolio perguntarem: "Ainda em preto e branco? Por quê?"
A palavra que pesa é "ainda". Ela trata o preto e branco como uma etapa a ser superada, não como uma escolha. Ninguém pergunta a um pintor "ainda a óleo?" Nem a um poeta "ainda em verso?". E ninguém pergunta a um fotógrafo "ainda em cor?".
A pergunta justa seria outra: o que o preto e branco faz por essas imagens?
Nada mais contemporâneo que a liberdade
As fotografias do Japão nasceram em cor, como todo arquivo digital. O preto e branco veio depois, na edição, como decisão e não como hábito. Algumas imagens talvez peçam cor um dia. Outras já nasceram pedindo silêncio, contraste e grão.
Não se trata de defender o preto e branco contra a cor. Trata-se de recusar que uma paleta defina se um trabalho pertence ou não ao seu tempo. Contemporâneo não é uma escolha de cor. É a consciência das escolhas que se faz.
Pois nada é mais contemporâneo que a liberdade!
