Omicron — Escola de Fotografia
Fotografia autoral e documental

Um Japão colorido me fez enxergar em preto e branco

por Osvaldo Santos Lima
Um Japão colorido me fez enxergar em preto e branco
Passei 26 dias no Japão. Voltei com cerca de oito mil arquivos e com uma surpresa: o país que mais cor me ofereceu foi o que mais me pediu preto e branco.

Cor não faltava. Nos letreiros, nas embalagens, nos trens, no vermelho dos templos. Seria fácil, quase óbvio, voltar com um Japão saturado. Mas, diante das imagens no computador, percebi que a cor me dizia onde eu estava. O preto e branco me dizia o que eu tinha visto.

O teatro do preto e branco

Ninguém enxerga em preto e branco. Por isso mesmo, quando tiramos a cor de uma fotografia, ela deixa de fingir que é a realidade e assume o que sempre foi: uma representação. Um palco.

Nesse palco, a luz vira cenário, a sombra vira personagem, o gesto ganha peso de cena. O contraste separa a figura do fundo como um refletor separa o ator do resto do teatro. O grão lembra que há uma superfície entre nós e o mundo.

Pode parecer estranho falar em teatralização na fotografia documental, que se pretende fiel ao que aconteceu. Mas penso o contrário: o preto e branco é uma forma honesta de documentar, porque não esconde que há alguém olhando. Ele declara o ponto de vista. A cor, muitas vezes, nos convence de que a foto é uma janela. O preto e branco nos lembra que é uma escolha.

Uma tradição, não uma limitação

A fotografia documental nasceu em preto e branco. Durante décadas, por razões técnicas e de custo; depois, por escolha. Lewis Hine, Dorothea Lange, Walker Evans, Henri Cartier-Bresson, W. Eugene Smith, Robert Frank, Josef Koudelka, Sebastião Salgado: boa parte do que entendemos por olhar documental foi construída em tons de cinza.

No Japão, essa tradição ganhou uma virada radical. No fim dos anos 1960, a revista Provoke, fundada em 1968 e com apenas três números, deu nome a uma estética: are, bure, boke — granulado, tremido, fora de foco. Daido Moriyama, que entrou no grupo a partir do segundo número, levou essa linguagem adiante por décadas. Ali, o preto e branco não era nostalgia. Era rebeldia.

Caminhando por Tóquio, Kyoto, Osaka e Hiroshima, era impossível não sentir essa herança por perto.

Quando a cor virou senha

Em 1976, o MoMA, em Nova York, expôs William Eggleston's Guide: a primeira individual de fotografia em cor da história do museu. Foi uma conquista. A cor, até então associada à publicidade e às fotos de família, entrava pela porta da frente da arte.

O problema veio depois. O que era uma possibilidade virou regra, e a regra virou senha: para ser contemporâneo, era preciso fotografar em cor. O preto e branco passou a ser visto como coisa do passado, um gesto romântico ou um filtro de efeito.

Troca-se a linguagem pela época. Como se a escolha de uma ferramenta dissesse, sozinha, em que tempo vive quem a usa.

"Ainda em preto e branco?"

Vi esse preconceito acontecer de perto. Em semanas de fotografia e bienais de que participei ouvi alguns importantes leitores de portfolio perguntarem: "Ainda em preto e branco? Por quê?"

A palavra que pesa é "ainda". Ela trata o preto e branco como uma etapa a ser superada, não como uma escolha. Ninguém pergunta a um pintor "ainda a óleo?" Nem a um poeta "ainda em verso?". E ninguém pergunta a um fotógrafo "ainda em cor?".

A pergunta justa seria outra: o que o preto e branco faz por essas imagens?

Nada mais contemporâneo que a liberdade

As fotografias do Japão nasceram em cor, como todo arquivo digital. O preto e branco veio depois, na edição, como decisão e não como hábito. Algumas imagens talvez peçam cor um dia. Outras já nasceram pedindo silêncio, contraste e grão.

Não se trata de defender o preto e branco contra a cor. Trata-se de recusar que uma paleta defina se um trabalho pertence ou não ao seu tempo. Contemporâneo não é uma escolha de cor. É a consciência das escolhas que se faz.

Pois nada é mais contemporâneo que a liberdade!

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