Omicron — Escola de Fotografia
Inspiração e cultura

Quem fotografa só com a técnica, fotografa raso: por que a leitura é o verdadeiro diferencial do fotógrafo

por Osvaldo Santos Lima
Quem fotografa só com a técnica, fotografa raso: por que a leitura é o verdadeiro diferencial do fotógrafo

Quem fotografa apenas com a técnica, fotografa raso. É uma frase dura, eu sei, mas foi assim que abri a nossa live aberta — e é assim que penso depois de quarenta anos de fotografia profissional. Porque é a leitura que nos dá foco. É a leitura que nos dá profundidade. É a leitura que dá sentido à nossa fotografia. E hoje eu quero falar de algo extremamente impopular, mas extremamente necessário: o processo de aculturamento, esse pré-fotográfico que quase ninguém quer discutir.

Se você acha que está fotografando raso, será que não é porque você só consome vídeos falando de câmera, de lente, de flash, de técnica — e esquece que muito além da técnica existe o saber, o conhecimento, a cultura? A cultura é aquilo que você precisa saber para enxergar o mundo. Sem ela, a gente reduz a fotografia a uma boa lente, uma boa câmera, um bom sensor. E fotografia é muito mais do que isso.

Foi para bater de frente com essa preguiça que lançamos o Clube de Leitura da Omicron — o GEO, nosso Grupo de Estudos em nova edição. Não pela grana; se eu quisesse dinheiro, fotografo ou dou aula, ganho muito mais. Faço porque é preciso criar uma comunidade que se diferencie da pasmaceira em que o YouTube se tornou, onde a conversa gira em torno do último equipamento lançado. Vamos ler juntos.

1. Sem repertório, o fotógrafo vira um tripé

O mundo é do tamanho dos livros que você leu. Por isso algumas pessoas têm um mundo pequeno e, quando saem à rua para fotografar, não conseguem enxergar a beleza. Quando alguém vai para o mundo com uma câmera na mão, mas sem a sensibilidade que a leitura oferece, o que essa pessoa é para o mundo? É simplesmente um tripé. Finge ser fotógrafo, porque não tem sentido, não tem profundidade — serve para segurar a câmera. E, na fotografia, o grande acessório que serve para segurar a câmera se chama tripé.

Não quero ler, você diz. Tudo bem, o clube não é para você. Mas há um pedágio caro nessa escolha: tornar-se inculto para a sensibilidade que a leitura oferece. E aqui vale uma distinção — ignorância é diferente de burrice. Ignorar é apenas não tomar conhecimento. A leitura é o que resolve isso: é como subir o morro e ver as coisas de um ponto mais alto. O horizonte percebido fica mais distante, e o olhar passa a ter mais prazer. Quanto mais eu conheço do mundo, mais prazer sinto em vê-lo, em procurar temas, em fazer fotografia documental — e até em compreender o briefing do cliente, porque eu domino o verbal.

2. O pré-fotográfico: a fotografia começa muito antes do clique

Eu divido a construção do fotógrafo em algo que chamo de pré-fotográfico: aquilo que você precisa saber antes de levantar a câmera. Uma das portas de entrada da linguagem fotográfica é o domínio do verbal. Muita gente acha que é técnica — e a técnica é, sim, uma porta de entrada, sempre digo isso. Mas você tem que construir a sua corrente de qualidade fotográfica no verbal (leitura, conversa), no visual (cinema), no auditivo (música) e nos livros de portfólio. Isso é repertório: o seu grande armário de saberes, com escaninhos separados, de onde você tira correlações quando vê algo na realidade.

Um exemplo que sempre acontece: um fotógrafo viajando de carro com a família olha pela janela e diz "meu Deus, que luz". O resto da família olha assustado — "luz? do que você está falando?". A luz era igual para todos, mas não foi percebida por todos. O homem caminhando na beira da estrada segurando uma santinha para levar ao vizinho, naquela coisa interiorana brasileira, só foi imagem para quem conhecia um pouco de história, para quem tinha apreciação estética. E estética se aprende, num processo de sensibilização. Quando pergunto a um aluno qual foi a última vez que ele foi ao teatro e descubro que ele nunca viu uma peça, nem teatro infantil, sinto tristeza: faltou a formação da narrativa, da mise-en-scène, do palco. E o que é a fotografia senão a coxia aberta, o ponto de mirada sobre um fragmento da vida alheia?

3. Salgado, Bresson e Drummond: a câmera é só o caderno de rascunhos

Quando eu vou à realidade, uso a minha câmera como um caderno de rascunhos. E aí eu pergunto: quem é mais importante, o escritor ou o caderno? Quando você eleva a câmera acima de tudo, está elevando o caderno de rascunhos. É a mesma coisa que dizer que Drummond escrevia bem por causa do lápis e do papel. Bresson é um poeta porque a alma dele é sensível — e essa sensibilidade foi treinada. Bresson conhecia a sintaxe visual; Drummond, a sintaxe da língua portuguesa. Eu preciso conhecer a semântica, os sentidos do mundo.

O que foi Sebastião Salgado senão um grande intelectual vindo da economia, que se tornou fotógrafo? Salgado não fotografa "com uma Leica ou com uma Canon", como mostram nos filmes. Ele fotografava com os anos de estudo e de leitura que fez com o abajur aceso, ao lado da esposa, conversando sobre literatura, sobre economia, sobre este mundo. Fotografia não é a frieza do metal, mas a quentura da leitura. A gente fotografa com o que lê, com o que vive, com o que sente. Apertar o disparador do obturador é o mínimo.

4. Susan Sontag: entre embelezar e contar a verdade

O primeiro livro do nosso clube é Sobre Fotografia, de Susan Sontag — e sou professor de fotografia documental, então falar de documentário é falar de história, de sociologia, de filosofia da imagem, dos pensadores que fizeram por nós aquilo que hoje temos preguiça de fazer: parar para pensar. Tanto que muita gente já prefere a inteligência artificial à própria ignorância natural.

Sontag lembra que as consequências de mentir são mais cruciais para a fotografia do que jamais seriam para a pintura, porque a foto reclama para si uma condição de verdade que a pintura nunca poderia pretender. A fotografia tem uma ligação física com a realidade — como dizia Peirce, ela indica a emanação luminosa do real, que passa pela lente e atinge o material sensível, o filme ou o sensor. A pintura não tem esse vínculo: é mimética por escolha, não por essência. E Sontag resume a história da fotografia como a luta entre dois imperativos: o embelezamento, herdado das belas-artes, e o contar a verdade, herdado das ciências e do jornalismo. As pessoas pretendem tanto a beleza que deixam de lado a verdade — a selfie, o filtro do Instagram, os softwares de remodelação de rosto são exatamente isso: um juízo de valor sobre a beleza que se sobrepõe à verdade.

5. Um método contra a preguiça: como funciona o Clube de Leitura

"Osvaldo, tenho preguiça de ler." Então vamos bater nessa preguiça e ler juntos. Existe método — estudar é método. Não é aquele ensinamento vago, de "veja a realidade com emoção", como se fosse um segredo ninja perdido nas montanhas perto de Nagoya. O clube estabelece um fazer, e um fazer que hoje não é fácil para a maioria: ler um livro em dois meses.

Na prática, são três livros no semestre — a cada dois meses, um livro — com três encontros online via Zoom, 100% online, de uma hora e meia cada. A lista é: Sobre Fotografia, de Susan Sontag (encontro em 13 de setembro); Filosofia da Caixa Preta, de Vilém Flusser, que fala do fotógrafo como operário da câmera e da subversão do aparelho (8 de novembro); e A Câmara Clara, de Roland Barthes, para fechar o semestre. Não distribuímos PDF, por questão ética — você não quer que roubem a sua fotografia, então não vamos roubar o texto de quem estudou e escreveu um livro. Procure na biblioteca da sua cidade, na da sua faculdade, ou compre pelo nosso link. As vagas são limitadas de propósito: eu não quero uma multidão, quero um grupo fechado, com qualidade.

Fotografia é a sensibilidade de olhar o outro — de forma econômica, como iguais. Quando você faz isso, ajuda a nossa sociedade e cria narrativas boas da nossa história. A minha pergunta é simples: você deseja melhorar a sua fotografia? Eu desejo ser um professor melhor, e é por isso que estudo todos os dias.

Continue com a Omicron

A fotografia começa antes do clique. Se você sentiu que está fotografando raso e quer trazer o aporte da leitura para dentro da sua fotografia, o Clube de Leitura GEO é o caminho: três livros, três encontros, um grupo fechado com qualidade — e um preço que cabe no seu orçamento.

👉 Quero entrar no Clube de Leitura GEO

Artigo: Osvaldo Santos Lima | Fotógrafo, Mestre em Comunicação e Linguagens e Professor de fotografia.

‹ Ver todos os posts
Continue lendo

Posts recentes

Conhecer o passado para criar o seu olhar contemporâneo
Conhecer o passado para criar o seu olhar contemporâneo
O que a IA não fotografa: por que a fotografia documental resiste
O que a IA não fotografa: por que a fotografia documental resiste
Esqueça a câmera
Esqueça a câmera