Técnica e Linguagem

14 de dezembro de 2017
"Quando o estado francês adquire a invenção de Daguerre (1839), divulgando-a pra a "humanidade", a produção de imagens torna-se uma realidade." Renato Ortiz, em Cultura e Modernidade, Ed. Brasiliense, p.67

A fotografia nasce com a vocação para a paisagem e a natureza morta. Mas era óbvia sua vocação para os retratos, para a vaidade humana, para documentar as primeiras fisionomias de nossa história sem passar pela subjetividade da mão do pintor.

O tempo de exposição foi o responsável por esta primeira vocação para o inanimado. Acompanhe a evolução do tempo de exposição:

1840 - 13 minutos
1842 - 20 a 40 segundos
1855 - 3 segundos

A conquista da ação se daria próximo de 1880 se amalgamando a alma da fotografia como um instantâneo, um lapso, um registro centesimal de nosso tempo. Tão arraigada que é a ideia de instante que ao explicar aos alunos sobre o obturador e sua capacidade de registro em baixas velocidades, ou mesmo em B, é comum constatar o espanto em descobrirem que nem todas as fotos são estreitas faixas de tempo.

Ensinar fotografia é trazer a técnica ao encontro da história e da linguagem fotográfica. A linguagem, como assiná-la Flusser, se deve ao programa do aparelho e este é, em primeira instância, sua capacidade técnica, sua ontologia mecânica. A história acrescenta ao discurso pedagógico o forte elemento de contextualizar o avanço recíproco entre linguagem e técnica.

No meio acadêmico encontra-se poucos interessados em perceber a fotografia por seu caráter técnico. Dispensam, ao meu ver, um saber que abre as portas para diversas interpretações sobre o fazer fotográfico e sua essência criativa.

Professores de fotografia, fotógrafos, estudiosos, amantes da imagem, precisam começar a tratar a fotografia dentro de toda a sua "simples complexidade". Sinto que há espalhada de forma democrática uma verdadeira ignorância fotográfica. Talvez fruto de uma característica única da linguagem fotográfica. Pode-se escrever antes mesmo de aprender a ler. Assim, milhares de fotografias surgem de analfabetos visuais. E, algumas dessas imagens, são razoáveis.

Compreender a fotografia como linguagem, como arte, como expressão humana, como desejo de registro, passa por estudar o avanço tecnológico do meio e sua forma de difusão.

Osvaldo Santos Lima


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