Drone e fotografia

9 de janeiro de 2018
O Drone e a fotografia. 


Ainda tenho o vício acadêmico da reflexão sobre a fotografia. A tecnologia sempre foi motor de novas formas de se perceber o mundo e, novos olhares, novos preconceitos. 


De uma foto pode-se falar de muitas maneiras: que é bela, feia, horrível, mal enquadrada mas de maneira nenhuma que uma foto está “errada”. Toda fotografia existe enquanto consequência pensante de um olhar e da vontade deste olhar se expressar. Os Drones trouxeram novas possibilidades espaciais para o chamado vértice da tomada, ou seja, a posição do fotógrafo. A tecnologia democratizou pontos de vista antes só possíveis com caríssimos voos aéreos. Qualquer um que tenha um drone pode se aventurar em busca destas imagens quase mágicas para toda uma geração “pé no chão”. E isso é bom! Maravilhoso.


Porém, voltando ao que eu dizia, vi fotógrafos falarem de uso errado do drone. Na verdade, qualquer uso é correto por estar na programação do aparelho e poder ser, então, efetuado. A palavra erro aqui traz consigo a vontade pessoal de que o drone produza imagens sob o mesmo estatuto da câmera “não conduzida à elevada altura”. Erro seria usar o drone como drone para alguns. Posso estar exagerando mas buscam uma dimensão fotográfica condizente com a estética em vigor. Querem, de certa forma, que o paradigma permaneça. Nada mais humano que buscar acolhida nos paradigmas que já foram vencidos por nossas práticas cotidianas, absorvidos por nossos hábitos. O medo de não pertencer mais ao presente pode explicar em parte. Entretanto, tal medo nunca deveria existir pois somos todos seres deste momento. Os que acreditam serem a vanguarda e os que creem na tradição. 


Tenho observado com muito interesse, além de ter feito algum uso primário, a relação do drone e a estética fotográfica. Nadar teria usado! Bresson certamente. Não o Bresson envelhecido das entrevistas do final do séc. XX., mas o jovem e entusiasmado fotógrafo que se arriscava com uma tecnologia super recente como o filme 35mm. Nadar teria deixado o balão de lado na antiga Paris para pilotar um Drone. Bresson abraçaria a ideia de voar com seu olhar sobre o cotidiano europeu. O Drone, como tantos outros avanços tecnológicos, encontra seus integrados e seus apocalípticos. Tendo a ver um enorme ganho em sua adoção e todo um novo campo de pesquisa teórica que mal sinto ser abordada. Um exemplo? E claro que escreverei sobre o tema.


O Drone fotográfico na fotografia de guerra e de conflitos.


O quanto de nossa admiração por Robert Cappa não vem de sua coragem? O quanto suas fotografias, carregadas de enorme proximidade, não ilustram um poderoso pensamento do observador: “Como ele chegou tão perto? Como ele sobreviveu em meio a esta batalha?” Minha indagação aqui é o quanto que as famosas fotos de guerra vivem sobre a dualidade estética e coragem? A fotografia sempre teve a enorme vocação de ser a testemunha ocular não por referência ao seu estatuto de gravar a imagem mas por trazer junto do aparelho fotografico um ser humano sensível a todo aquele ambiente em que a fotografia foi feita. Portanto, se há poeira, lama, chuva, sangue, morte ou dor o homem por trás da lente estaria impregnado pelos odores, pelo sangue, coberto pelo pó, compadecido pela dor  e fragilizado pela ideia da morte.


O que o drone traz aqui, e isto sim me parece crucial, é um homem que vê sem estar, que observa sem participar, que retrata sem dar a cara à vista do retratado. Um paradigma não somente estético mas ético para o fotojornalismo e fotodocumentarismo. Tão profundo quanto à questão ética dos drones militares que matam remotamente e, talvez, vá além quando pensamos que o ato de fotografar é o de se solidarizar, creio eu, com a dor ou alegria alheia.


Seriam os novos fotógrafos de Guerra como nós à frente de um noticiário sobre um conflito armado. Não passariam de meros espectadores com os olhos voltados a uma pequena e fria tela de pixels?


Parece que a pós-modernidade gosta de guerras limpas. Espero que não sejamos nós, os fotógrafos, que ajudem nesta ideia de assepsia. 


Fotos erradas com drones não existem. Assim como fotos erradas com celular, câmera analógica, D-SLR ou mirrorless. O que existe e sempre existirá é uma foto que agrade ou desagrade seus princípios estéticos e/ou ideológicos. Ao ditar altitude, postura, ponto de vista para o olhar alheio ou uso “correto” de uma tecnologia o sujeito se torna, na precisa definição flusseriana, um operário do aparelho.

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